Adoçantes Fazem Mal? O Que Diz a Ciência | Minuto Saúde

Entenda os estudos científicos sobre os riscos cardiovasculares do eritritol e xilitol, o alerta da OMS e como equilibrar o uso de adoçantes.

Daniel Felipe

9/8/20265 min ler

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Eritritol, Xilitol e Outros Adoçantes: O Que a Ciência Diz Sobre os Riscos Cardiovasculares?

Nos últimos anos, o mercado de alimentos saudáveis passou por uma verdadeira revolução. Com o objetivo de reduzir o consumo de açúcar refinado e combater a obesidade, milhões de pessoas substituíram o açúcar comum pelos adoçantes artificiais e naturais. Dos cafés matinais aos doces "fit", bebidas "zero" e produtos low carb, os adoçantes tornaram-se presença garantida na rotina de quem busca manter o peso ou controlar o diabetes.

No entanto, publicações científicas recentes nas mais prestigiadas revistas médicas do mundo acenderam um sinal de alerta. Estudos de grande escala passaram a investigar a relação entre o consumo frequente de certos adoçantes — em especial os polióis (como o eritritol e o xilitol) — e o aumento do risco de eventos cardiovasculares, como infartos e acidentes vasculares cerebrais (AVC).

Neste artigo, explicamos de forma simples e direta o que a ciência descobriu, quem deve ter atenção redobrada e como equilibrar o paladar no dia a dia sem sustos.

O Que São os Adoçantes Polióis (Eritritol e Xilitol)?

Os chamados polióis são carboidratos conhecidos como álcoois de açúcar (embora não contenham álcool etílico). Eles são encontrados naturalmente em pequenas quantidades em algumas frutas e vegetais, mas também são produzidos em escala industrial para adoçar alimentos processados.

Os dois representantes mais famosos dessa classe são:

  • Eritritol: Muito popular por ter um sabor muito próximo ao do açúcar tradicional, com quase zero calorias e baixo impacto na glicemia.

  • Xilitol: Bastante utilizado em chicletes, cremes dentais e receitas "fit", possui poder adoçante similar ao da sacarose (açúcar comum), com menor quantidade de calorias.

Por muitos anos, essas substâncias foram consideradas substitutas ideais para o açúcar por não causarem picos de glicose no sangue nem cáries dentárias.

O Que Descobriram os Estudos Científicos Recentes?

A discussão ganhou força na comunidade médica após a publicação de duas pesquisas marcantes lideradas pela Cleveland Clinic (EUA) e publicadas em grandes periódicos científicos.

1. A Pesquisa Sobre o Eritritol (Nature Medicine, 2023)

Um estudo publicado na prestigiada revista Nature Medicine (Witkowski et al., 2023) analisou dados de mais de 4.000 pacientes nos Estados Unidos e na Europa. Os pesquisadores observaram que indivíduos com níveis mais elevados de eritritol no sangue apresentavam maior risco de sofrer eventos cardiovasculares graves, como infarto do miocárdio ou AVC, ao longo de três anos de acompanhamento.

Análises de laboratório complementares revelaram o mecanismo por trás dessa associação: o eritritol em concentrações elevadas parece aumentar a reatividade das plaquetas sanguíneas. As plaquetas são células responsáveis por iniciar a coagulação. Quando ficam "mais reativas" ou hiperativas, aumenta a facilidade com que pequenos coágulos (trombos) se formam e bloqueiam os vasos sanguíneos.

2. O Alerta Sobre o Xilitol (European Heart Journal, 2024)

Em um desdobramento do mesmo grupo de pesquisa, um estudo publicado no European Heart Journal (Witkowski et al., 2024) examinou o impacto do xilitol. Os achados foram muito semelhantes: altos níveis de xilitol no sangue estiveram associados a um risco aumentado de eventos cardiovasculares. Experimentos demonstraram que o xilitol também estimula a agregação plaquetária, favorecendo a formação de coágulos no sistema circulatório.

3. As Diretrizes da Organização Mundial da Saúde (OMS)

Somando-se a essas pesquisas, a Organização Mundial da Saúde (OMS) publicou uma diretriz abrangente recomendando que adoçantes não açucarados não sejam utilizados como meio primário para o controle de peso corporal de longo prazo. A revisão sistemática da OMS apontou que o uso prolongado de adoçantes não traz benefícios significativos na gordura corporal e pode estar associado a um leve aumento no risco de diabetes tipo 2 e doenças cardiovasculares em estudos observacionais.

É Hora de Entrar em Pânico?

A resposta curta é não. A comunidade científica e as sociedades médicas recomendam cautela na interpretação desses dados.

A maioria das pesquisas recentes aponta uma associação entre níveis elevados de adoçantes e riscos à saúde, mas isso não prova automaticamente uma relação direta de causa e efeito em todas as pessoas. Além disso, o nosso próprio organismo produz pequenas quantidades de eritritol e xilitol de forma natural através do metabolismo da glicose.

Contudo, os dados servem como um importante aviso de que os adoçantes não são substâncias totalmente inertes no corpo e não devem ser consumidos em quantidades ilimitadas sob a falsa premissa de serem "100% inofensivos".

Quem Deve Ter Atenção Redobrada?

Embora a moderação seja válida para todas as pessoas, alguns grupos específicos devem buscar orientação médica ou nutricional ao consumir adoçantes com frequência:

  • Pessoas com histórico de doenças cardiovasculares: Pacientes que já sofreram infarto, AVC ou que possuem diagnóstico de trombose.

  • Indivíduos com múltiplos fatores de risco: Pessoas com hipertensão arterial grave, colesterol elevado ou diabetes descompensado.

  • Pessoas que consomem ultraprocessados "zero" em excesso: Quem consome múltiplos produtos industrializados adocicados ao longo do dia (refrigerantes zero, barras de proteína, doces low carb e adoçantes em pó).

Dicas Práticas: Como Treinar o Paladar e Garantir o Equilíbrio

A melhor estratégia para a saúde a longo prazo não é trocar um excesso por outro, mas sim trabalhar a reeducação do paladar.

  1. Reduza a Dose Gradualmente: Se você costuma usar duas gotas ou colheres de adoçante no café, diminua para uma. Com o tempo, o seu paladar se acostuma a sentir o sabor real do alimento.

  2. Priorize Alimentos Naturais: Dê preferência a frutas para adoçar preparações caseiras (como banana madura, maçã ou tâmaras) em vez de aditivos em pó.

  3. Varie as Opções: Caso precise utilizar adoçantes, alterne os tipos (como estévia ou sucralose) em vez de consumir uma única substância em grandes volumes diariamente.

  4. Leia os Rótulos com Atenção: Muitos produtos rotulados como "sem açúcar" contêm grandes quantidades de eritritol, xilitol ou sorbitol escondidos na lista de ingredientes.

Conclusão

Os adoçantes continuam sendo ferramentas úteis em contextos específicos, especialmente para pessoas com diabetes que precisam gerenciar picos de glicemia. No entanto, as evidências científicas atuais reforçam que nenhum aditivo substitui o valor de uma alimentação baseada em comida de verdade e no equilíbrio diário.

Referências Científicas Consultadas

  1. WITKOWSKI, M. et al. The artificial sweetener erythritol and cardiovascular event risk. Nature Medicine, v. 29, p. 710–718, 2023.

  2. WITKOWSKI, M. et al. Xylitol is associated with cardiovascular risk and enhances platelet reactivity. European Heart Journal, ehae244, 2024.

  3. WORLD HEALTH ORGANIZATION (WHO). Use of non-sugar sweeteners: WHO guideline. Geneva: World Health Organization, 2023.

  4. SOCIEDADE BRASILEIRA DE CARDIOLOGIA (SBC). Posicionamento sobre fatores de risco cardiovasculares e nutrição. Rio de Janeiro, 2023/2024.

Aviso Legal: Este conteúdo possui caráter exclusivamente educativo e de utilidade pública. Não substitui a consulta, o diagnóstico ou a orientação médica e nutricional individualizada. Caso você possua dúvidas sobre a sua dieta ou condições de saúde, consulte um profissional habilitado.